Ir para o Conteúdo da página Ir para o Menu da página
Preta

Preta

27/10/2010
14/12/2025
Compartilhe essa memória:

Alguns encontros na vida não acontecem por acaso. Eles são escolhidos. E foi assim com ela. No meio de uma ninhada de Lhasa Apso, era a Pretinha quem insistia, rodava o cercadinho, chamava atenção, queria colo. Quando foi pega nos braços, ficou calminha. Como se dissesse: “é você”. E foi assim que começou uma história de quinze anos de muito amor. 

Pretinha, Tchuca Tululuca, Pretoviski, Pê, Princesa… tantos apelidos para um amor tão único. Pequena no tamanho, imensa na presença. Rabugenta, quietinha, mimada e completamente dona de si. Não gostava de outros cachorros, não fazia questão de socializar, mas era a sombra perfeita. Onde Nadia ia, ela estava. Dia e noite juntas. Trabalhou todos os dias no escritório, sempre ali, acompanhando cada tarefa, cada pausa, cada suspiro.

Ela gostava da praia, do vento do mar batendo no rostinho, daquele momento em que parecia apenas contemplar a vida. E tinha sua marca registrada: quando estava bem, vinha e lambia a mão direita. Era o seu jeito de dizer que estava feliz, que estava ali, que estava tudo certo.

Foram parceiras em longas madrugadas, em períodos difíceis, em dias em que o silêncio pesava. Nessas horas, ela simplesmente se aproximava e olhava fixamente nos olhos. Um olhar profundo, cheio de entendimento. Não precisava de palavras. Ela sabia. Sempre soube.
Sempre foi mais sensível de saúde, exigindo cuidados constantes. E foi cuidada como filha. Com zelo, atenção, amor e presença. 

No ano passado, veio o diagnóstico de câncer e a previsão dura: dois meses de vida. Mas ela, forte do seu jeito silencioso, viveu mais dez meses. Dez meses de despedidas diárias, de conversas baixas, de agradecimentos, de preparação. Talvez ela tenha ficado esse tempo a mais justamente para isso, para preparar o coração de quem ficava. Para ensinar que descansar também é um ato de amor.

A casa hoje está vazia. O silêncio é diferente. Ainda não apareceu outra cachorrinha que tivesse “escolhido” assim. Porque alguns vínculos não se repetem, eles marcam.
E tinha também suas manias. Quando ficava uns dias na casa da mãe, ao voltar, fazia charme. Demorava para olhar na cara, se escondia embaixo da cama, como quem dizia que estava brava. Mas era só orgulho disfarçado de saudade.

Pretinha não foi apenas um pet. Foi companhia, foi apoio, foi colo em forma de pelo e olhar. Foi amor fiel por quinze anos. E mesmo que agora o espaço físico esteja vazio, a presença dela continua viva nas lembranças, no vento da praia, nas madrugadas silenciosas e na mão direita que ainda sente falta daquela lambidinha.

Alguns amores são assim, pequenos no tamanho, eternos na alma.